– Os árbitros contra o Bom Senso FC e outras novidades para o Brasileirão de 2014

Causou muita polêmica a Circular 10/2014, datada de 26/02/14 (mas publicada só agora pelo site da CBF, após trabalhos realizados com os árbitros de futebol que trabalharão no Campeonato Brasileiro). São várias e importantíssimas orientações, que certamente polemizarão:

A- MANIFESTAÇÕES

No item 13 da Circular está destacado que:

Os componentes da arbitragem devem promover esforços no sentido de procurar evitar que possíveis manifestações nos jogos do Campeonato Brasileiro sejam concretizadas quando houver desrespeito às regras, inclusive com alertas e avisos dados pelos 4°s árbitros aos responsáveis pelas equipes quando da ida aos vestiários antes das partidas. Esses avisos devem ser feitos esclarecendo que determinadas atitudes estão previstas nas Regras de Jogo com as devidas advertências e providências que devem ser tomadas pela arbitragem, não sendo iniciativas da CBF ou da Comissão de Arbitragem da CBF e, sim, normas já existentes emanadas pelo IFAB e constantes do Livro de Regras de Futebol em vigor.”

Trocando em miúdos: a CBF usa as orientações internacionais de que não podem existir manifestações políticas, raciais ou religiosas, sejam escritas ou gestuais antes, durante e depois das partidas de futebol. Isso deve ser punido e relatado.

Se um jogador atrasa a partida propositalmente, deve receber Cartão Amarelo por “retardar o início /ou reinício da partida”. Se ele faz algo fora do âmbito esportivo, deve receber a Advertência por conduta antidesportiva. E se os jogadores cruzarem os braços antes do tiro inicial ou se sentarem no gramado por 1 minuto?

Estou para ver um árbitro que seja corajoso de aplicar o Cartão Amarelo aos 22 jogadores! “Duvido e-o-dó”, como diriam os mais antigos.

Claro que um subterfúgio possível a ser utilizado será o de dar a advertência ao capitão de cada equipe, representando a agremiação. Ainda assim, considero uma bobagem.

Parece que a CBF está tentando confrontar o Bom Senso FC, afinal, para quê tal destaque nesse quesito “manifestações durante as partidas”?

Deve-se lembrar: O conceito “Manifestação” é amplo para a FIFA. Quer exemplos?

A1- Antigamente, era muito comum nas equipes de divisões inferiores o “bom político” ceder camisas com seu nome (como se fosse o patrocínio master), claramente para fazer campanha eleitoral. Isso não pode. Também gesto nazista/ facista ou qualquer outra coisa que lembre política.

A2- Recentemente, a FIFA demonstrou grande preocupação com as comemorações da Seleção Brasileira na Copa das Confederações da África do Sul, após a vitória contra os EUA, quando Kaká, Lúcio e demais atletas evangélicos promoveram um mini-culto pós-vitória dentro do campo. A entidade pediu para que se evitasse tais demonstrações de fé. Na época, a Dinamarca fez um protesto formal da atitude dos “atletas de Cristo” pois no esporte, segundo a própria Federação Dinamarquesa, “deve-se respeitar todas as crenças e a descrença, e os brasileiros mostraram fanatismo religioso na ocasião”. A queixa foi aceita e se enfatizou o rigor contra tais manifestações.

Já imaginaram a confusão que dará se um jogador tomar Amarelo depois do jogo por chamar seus companheiros para uma efusiva roda de oração depois da partida (já que se permite o cartão pós-jogo)? O árbitro menos instruído, se bobear, vai dar cartão na hora do Sinal-da-Cruz!

B- RACISMO

Mas, se quer se mostrar ditatorial a CBF quanto ao Bom Senso e laica / apolítica quanto às outras práticas (APOLÍTICA parece ser gozação, não?), mostra-se também preocupada positivamente contra o Racismo. No item 16.4, os árbitros deverão:

Paralisar imediatamente a partida quando identificada a prática de atos ou cânticos discriminatórios, racistas, xenófobos e/ou homofóbicos devendo ser chamado o delegado do jogo e o comandante do policiamento da partida para notificação. Registrar o fato em relatório indicando a origem dos atos”.

Enfim uma bola dentro da CBF…

C- RESERVAS

Há outras coisas não entendíveis pela Comissão de Árbitros. Se há 3 anos já se pode ter 11 reservas no banco de suplentes (no Brasil, só no ano passado isso foi utilizado pois na maior parte dos estádios não havia – acredite – espaço maior no banco de reservas, somente para 7), para esse ano, mesmo com a permissão para mais atletas, o item 12 da Circular diz:

Somente poderão participar do aquecimento 6 (seis) jogadores de cada vez, no local determinado pelo árbitro”.

Pois é, eu não queria ser um dos 4 que assistirão por 90 minutos o jogo como expectadores privilegiados, sem chances de entrar. Tem Arena que custa mais de 1 bilhão de reais e esse local de aquecimento não foi pensado?

D- VESTES DA CABEÇA

Por fim, eis um problema a ser explorado pela CBF: o item 9 com a mudança da Regra 4, que se refere a acessórios na cabeça!

Uma queixa dos povos árabes, e em especial das mulheres, era o não-aceite de véus (hijab) sobre as cabeças. A Seleção Iraniana Feminina já houvera realizado partidas dentro do país com o estádio fechado para que os homens não vissem as atletas com as cabeças descobertas, de acordo com um preceito religioso muçulmano mais radical. Ainda: já recusou a participação em competições internacionais (como nos Jogos Olímpicos de Londres 2012) pois não concordava com a exposição das atletas sem o véu islâmico. Uma comunidade sikh canadense solicitou a intervenção à Federação do Canadá para que a FIFA liberasse o turbante (Sikhismo é uma crença originária da Caxemira, região disputada pela Índia e Paquistão, e que mistura elementos do hinduísmo e islamismo), após uma confusão entre atletas oriundos de uma equipe dessa comunidade em Qebec, pois seus adversários se recusaram a jogar contra eles pelas vestes que usavam na cabeça. Também a Jordânia pressionou a FIFA, já que em 2016 haverá a Copa do Mundo Feminina Sub17 naquele país árabe.

Assim, após testes autorizados por 2 anos, liberou-se véus e turbantes. Jérome Valckè justificou o uso na ocasião: “Nós não podemos fazer discriminação. O que se aplica às mulheres pode ser aplicado aos homens”. Porém, os adereços usados deverão ser adaptados e não terão o mesmo aspecto visual do véu ou do turbante usados no dia a dia, pois deverá ter a mesma cor do uniforme e estar preso na cabeça sem nenhum tipo de alfinete, para evitar qualquer incidente durante o jogo.

Já imaginaram cabecear a bola usando turbante?

A primeira confusão já ocorreu: a França não permitiu o uso dos turbantes pois há uma Lei Federal da Laicidade que proíbe qualquer símbolo religioso em locais públicos. A FFF coibiu severamente não permitindo que atletas muçulmanos usassem o acessório.

A confusão vem aqui: o texto da Regra do Jogo foi mais amplo, dizendo:

Jugadores y jugadoras pueden llevar prendas de vestir que cubran la cabeza”.

Estou louco para ver um jogador mais rebelde entrar com o livrinho de regras debaixo do braço e perguntar ao juizão: “agora vou poder jogador de boné, solidéu/ quipá ou de gorro, né, ‘professor’?”. Aliás: goleiro de boné é normal, afim de proteger do sol. Mas e na linha?

E aí, o que você acha de tudo isso? Para mim, um conjunto de orientações visando minar o Bom Senso FC com outras bem confusas.

Brasil_CBF.jpg

Deixe seu comentário:

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s