– Quando o presidente do time vai se reunir com o chefe dos árbitros, o que acontece?

Leio que o presidente do Atlético Mineiro foi (de novo) à CBF para conversar com Wilson Luís Seneme, o chefe dos árbitros (a informação é do GloboEsporte, em: https://ge.globo.com/futebol/times/atletico-mg/noticia/2022/08/10/presidente-do-atletico-mg-se-reune-com-comissao-de-arbitragem-em-nova-visita-a-cbf-desabafei.ghtml). Detalhe: horas antes do decisivo confronto pela Libertadores da América. Estratégico, lógico.

Na primeira tentativa, no mês passado, Seneme estava reunido com os presidentes de comissões de arbitragens estaduais, e apesar de Sérgio Coelho (o presidente do CAM) ter dito que foi reclamar com ele, não houve conversa.

Nas semanas seguinte, a convite da CBF, os presidentes queixosos se reuniram com Seneme e Edinaldo Rodrigues, onde as reclamações foram feitas em “coletivo”.

Agora, o encontro foi particular, e o atleticano disse que desabafou e estava aliviado, pois Seneme ouviu tudo o que ele tinha a dizer.

– O que acontecerá agora?

  • Primeiro: todos os clubes reclamam que são prejudicados (todos MESMO). Ora bolas, se alguém é prejudicado, o adversário é beneficiado. E se TODOS são beneficiados, em algum momento, TODOS são beneficiados. E isso é ruim, pois não devem existir erros de compensação. Um pênalti não marcado no 1º minuto de jogo é um erro diferente do que um pênalti não marcado ao 89º minuto. Igualmente um atleta expulso no começo do jogo e outro ao final. Enfim: erros não se compensam pura e simplesmente e NEM DEVEM existir.
  • Segundo: Nas próximas rodadas, teremos os melhores árbitros nos jogos do Atlético, pois Seneme estará “precavido” de que não terá uma nova visita do dirigente.
  • Terceiro: Se o árbitro não estiver emocionalmente preparado, irá pensando: “Se eu errar contra o Galo Mineiro, vão ‘me encher o pacová’. Em dúvida, é melhor marcar ‘pra eles’ pois a queixa é menor”.
  • Quarto: Muitas vezes, se escolhe um “bode expiatório”, um árbitro para o sacrifício. Vide Palmeiras x Corinthians pelo Paulistão, onde inventaram Matheus Candançan, de 23 anos, para apitar antes de estar pronto. Simplesmente… sumiu!
  • Quinto: Sérgio Coelho e Leila Pereira infernizam com as reclamações de erros contrários (mas se calam com os erros a favor). Sendo assim, esperta do jeito que é, a Conmebol escalou um cara “rodado”, de fora, para descer do avião, apitar o jogo e ir embora: Wilmar Roldán. E se tiver queixa, que se virem no Brasil.

Insisto: nenhum dirigente se reune para dizer que foi favorecido e isso não é correto. Todos só pensam no seu umbigo, e isso é mais uma prova de que montar uma Liga no Brasil é ilusão (ao menos, nos moldes da Europa).

Seneme era mais feliz no apito do que como cartola, sem sombra de dúvida… embora deva ser muito melhor remunerado agora do que antes (sem dúvida também).

Brasileiro teria pedido punição rigorosa a Messi | Placar - O futebol sem barreiras para você

Imagem extraída de: https://placar.abril.com.br/placar/brasileiro-teria-pedido-punicao-rigorosa-a-messi/, por Daniel Garcia/AFP.

– O mau momento da arbitragem brasileira na Libertadores da América (e em outros torneios internacionais).

Dias atrás, ouvi que “não temos tantos árbitros brasileiros na Libertadores pois temos muitos times disputando títulos”. 

Calma lá! É uma verdade parcial. Nos últimos tempos, como no Maracanã (estando em solo brasileiro), com dois brasileiros decidindo título (Palmeiras x Santos), a Conmebol precisava dar um caráter continental à competição (e tem sido assim em alguns jogos). Mas lembremo-nos de grandes clássicos brasileiros no torneio, onde brasileiros foram escalados normalmente e sem discussão (lembram de Corinthians x Palmeiras com Edilson Pereira de Carvalho, decidido nos pênaltis)?

A prova de que esse (o excesso de brasileiros) não é o grande problema, mas sim a qualidade técnica, é o seguinte número: de 1990 para cá (32 anos), tivemos apenas 3 arbitragens brasileiras em finais de Taça Libertadores da América. Ou seja, não foram 29 decisões com brasileiros versus estrangeiros na final (River x Boca, por exemplo, em 2018, tivemos no jogo de ida Roberto Tolbar-CHI e na volta Andrés Cunha-URU). Considere ainda o desastre pior: dessas 29 partidas, apenas 3 foram em formato de jogo único (ou seja, nas outras 26 edições, foram 52 jogos). Desconsiderando as que envolveram brasileiros, ainda assim o número é altíssimo.

Os últimos árbitros brasileiros escalados: José Roberto Wright em 1991 (Colo Colo-CHI vs Olímpia-PAR), Márcio Rezende de Freitas em 2001 (Cruz Azul-MEX vs Boca Jrs-ARG, com erros relevantes de arbitragem a favor dos argentinos da Conmebol e contrários aos mexicanos da Concacaf) e Sandro Meira Ricci em 2014 (San Lorenzo-ARG vs Nacional-URU).

E não devemos nos restringir a apenas isso: Na Copa dos Campeões Europa-América do Sul, organizada conjuntamente pela UEFA e Conmebol (chamada de “Finalíssima”), disputada por Itália vs Argentina em Wembley, onde o estádio era europeu e o árbitro sul-americano (olha a chance de um brasileiro ser escalado), apitou a final o chileno Piero Maza. Nem aí conseguimos aparecer!

Nos anos dourados (ou politicamente fortes) da arbitragem brasileira, tivemos Arnaldo e Romualdo apitando as decisões de Copas do Mundo de 1982 e 1986. Depois disso, Elizondo e Pitana da Argentina reinaram (abrindo e fechando o Mundial).

E na Copa do Mundo de Clubes da FIFA? Nas 18 edições (não tivemos brasileiros jogando a final em 18 delas…) apenas Sandro Meira Ricci teve a honra de representar o país numa final, em 2013, no Bayern x Raja Casablanca.

A questão é: a coisa lamentavelmente tá feia… o descrédito é grande!

O que fazer? Talvez repensar os conceitos e “cair na realidade”. Por exemplo: dizer a Anderson Daronco que não temos a melhor arbitragem do mundo, como ele disse que tínhamos na Rede Globo.

Imagem extraída de: http://blogalemdoapito.blogspot.com/2019/09/